E a história se repete!

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Trechos do Manual do Paulistano Moderno e Descolado

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) Assim que concluiu a faculdade de jornalismo na Porto Alegre natal, Cacá veio para São Paulo. Nada de objetivos muito originais. Independência, sucesso profissional, vida cultural agitada. O de sempre. Uma vez instalada, mais uma vez ateve-se ao trivial e rapidamente se transformou em uma paulistana antenadíssima. Só quem vem de fora consegue se apresentar tão de acordo com a etiqueta pública da metrópole, fruto de minuciosa preparação. Quando em Roma, aja como os romanos. Ou melhor, quando em Roma, aja como o estereótipo dos romanos. A dedicação ao estudo de costumes paulistanos, contudo, não assegura perfeito desempenho nos primeiros meses. Se referir à cidade como Sampa, por exemplo, é garantia da revelação do disfarce. Faz parecer que vocês dois são íntimos, eu sei. Não, não. Confie em mim. Nada de Sampa. ()

()Mas enfim, sobrevivi. Logo após a hora do almoço entrava aqui em casa, são e salvo. Desfeita a mala, a fim de apagar qualquer vestígio da malfadada aventura, retornei ao hall para recolher o jornal empilhado de três dias. Antes de encaminhá-los à área de serviço, decidi dar uma olhada. Uma matéria chamou-me particularmente a atenção. Um fenômeno urbano acontecia em São Paulo. Jovens bem nascidos trocavam o conforto de bairros de elite da capital pela Barra Funda, transformando o até então decadente bairro no hype do momento. Como se não bastasse a total falta de contexto no postulado, já que na realidade tais jovem deveriam morar com os pais na Vila Nova Conceição e se dirigiam à Barra Funda movidos principalmente pelas limitações econômicas impostas a quem decide morar sozinho, a matéria ia além. Dizia que o bairro poderia se tornar o SoHo paulistano. Aluguéis baratos e boas baladas eram apresentados como prova. No segundo parágrafo, depoimentos inacreditáveis. Fulano de tal (jovem e produtor cultural, lógico) sempre sonhou morar entre galpões abandonados e uma linha de trem. Lindo sonho. Um pouco contraditório, o mesmo emenda um elogio às crianças que brincam nas ruas do bairro. Peraí. Ou galpões abandonados ou crianças jogando bola na calçada. Os dois juntos não ornam, a não ser que estejamos assistindo ao início de um filme B qualquer sobre gangues rivais e que, em poucos minutos, um carro passará em alta velocidade metralhando aqueles pobres inocentes.
Nada soava natural na matéria. O moço não tinha ido para lá por adorar a mistura esquizofrênica de decadência urbana com pureza infantil. A Barra Funda não vai se tornar o SoHo. O motivo é simples. Esse movimento de jovens descolados empenhados em transformar o bairro não existe. É forçado. Meu contra-ataque parece não surtir efeito, e o cara dos galpões não desiste. Continua falando bobagens. Quer
trazer mais pessoas para a vizinhança para que o bairro fique parecido com ele. E as crianças? Já esqueceu delas? Quando os argumentos racionais são por demais adequados a um modelo ideal seja ele qual for , não adianta. É mentira. A Barra Funda só se tornaria o SoHo (Espere um pouco, vou trocar a imagem. É um pouco cafona demais querer se tornar o SoHo). A Barra Funda só se tornaria o bairro descrito
se esses novos moradores jovens, urbanos e produtores culturais possuíssem efetivos vínculos afetivos com o lugar. E é impossível criar algum minimamente real quando você mesmo não assume o porquê de morar lá. É matemática. Você gasta tanta energia fazendo pose e inventando histórias que não sobra tempo para qualquer outra atividade. Mesmo convencido de minha opinião, resolvi checar. Liguei para minha mãe. Quando meus pais vieram para São Paulo, no fim dos anos sessenta, moraram alguns anos na Barra Funda. Começaram em um apartamento na Lopes de Oliveira para depois se transferirem a outro, na rua Barra Funda. Foi nesse último que nasci. Perguntei a ela se havia escolhido o bairro por sempre ter sonhado morar entre galpões abandonados e uma linha de trem. Ou se porque lá eu poderia crescer jogando bola na calçada. Sem qualquer hesitação, respondeu que não. Eles se mudaram para lá porque tinham uma considerável limitação de dinheiro na época e, dentre as opções possíveis, o bairro era o que apresentava mais proximidade com o trabalho de ambos, além de uma boa infra-estrutura. Simples. Não teve vergonha nenhuma em me dizer isso. Não havia porque ter. Se temos pouca grana, temos pouca grana. Ninguém morre por causa disso. Não precisa disfarçar como opção de vida ou postura estética. Mas isso foi há mais de trinta anos, você me diz. Pensei a mesma coisa. Por isso também perguntei a ela se o bairro era mais arrumadinho na virada dos setenta. Não, não. Era bem parecido com o que é hoje.  

Aluguéis baratos e boas baladas já formaram um binômio aplicado a diversas outras localidades. Há poucos anos dizia-se o mesmo do Centro Velho de São Paulo. Morar no Copan era um heróico ato de resistência à cafonice burguesa. Um atestado de responsabilidade social, evitando fechar os olhos para as reais feições da cidade. Também certificava sofisticação cultural. Um Niemeyer, cara. Moro num Niemeyer. E as baladas então? Hotéis decrépitos e prédios abandonados eram O lugar para se dar uma festa. Passada a novidade, nada mudou. Não houve um renascimento da área. No fundo, apesar do discurso contrário, ninguém realmente queria isso. Só a aparência bastava. Os hotéis continuam decrépitos e os prédios abandonados. O bar do Copan fechou. Daqui a três anos, provavelmente vou ler alguma matéria sobre a Lapa estar se tornando o SoHo paulistano. Mais três, e será a vez do Bom Retiro. Outros três e ficarei sabendo que é na Bela Vista que as coisas acontecem. Esqueça. Nada vai acontecer.

Uma resposta to “E a história se repete!”

  1. lucalopes Says:

    Comprei um apê na Barra Funda exatamente por ter pouca grana para comprar em outro local com as mesmas facilidades. No início fiquei meio assim, pois sempre morei em bairros mais elitizados mas estou bem empolgada pois a mudança que você não acredita já esta acontecendo e o Bairro esta ficando bem legal.

    Venha visitar a Barra Funda vc vai se surpreender.

    Luca

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