Você Odia ou Você Odeia?

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Piadinha que achei no Blog Fala Bonito, é do livro o Humor do Português de João Batista Gomes

 

Enquanto espera na fila, é abordado por uma jovem cujo rosto, apesar de bem-cuidado, denota preocupação.

– Eu odio esperar. E o senhor?

– Eu odeio. Odeio esperar, odeio ficar em filas…

A moça fita-o de alto a baixo (não confundir com abaixo) e endireita-se na fila. Instantes depois, volta-se e questiona:

– O senhor odeia ou odia?

– Fila e espera, eu as odeio.

– E outras coisas? O senhor odia?

– Há coisas na vida que eu amo, outras que eu suporto…

– E gente que fala errado? O senhor odeia, ama ou suporta?

– Assim com olhos grandes e claros, e dentes perfeitos, como os seus, tenho tendência a adorar.

– Os olhos são naturais. Nasci com eles. Os dentes são postiços.

– Dentes postiços?! Na sua idade? Custa-me crer…

– Pois creia. Coisas do interior.

Endireita-se novamente na fila. Três ou quatro passos à frente, ele a faz voltar-se.

– A partir de hoje, passo a odiar dentistas do interior. Eles tiram dentes como quem tira…

– Não tiram só dentes não. Tiram cabaço também.

Ele se assusta diante da declaração inesperada. Olha ao redor. Ainda bem que ninguém está acompanhando a conversa. São os últimos da fila.

– Se servir de consolo, aqui, na cidade, a senhorita vai precisar mais dos dentes…

– Isso significa que o senhor não valoriza a outra parte?

– Valorizo. Claro que valorizo. Mas não exageradamente. Se você não tem…

A fila anda mais depressa. O guichê está próximo. Ela confere os papéis. Antes de ser atendida, volta-se e pergunta:

– O senhor se envolveria com uma mulher que fala errado, que tem dentes postiços e que não tem cabaço?

Quando ia responder, o funcionário grita:

– Próximo!

Ela apresenta os papéis, estende o dinheiro, confere o troco. Antes de partir, questiona:

– O senhor não deu resposta à minha pergunta.

– Próximo!

Ele não sabe se dá atenção à moça ou ao funcionário. Ela anda em direção à porta de saída.

– Próximo!

Despertado por algum instinto anti-rotina (atente no hífen), ele abandona a fila e sai à procura da jovem. Na rua, sem o menor constrangimento, grita:

– Moça sem cabaço!

Muitas mulheres se voltam por causa do chamamento, mas ele só tem olhos para a jovem que o desafiou (atente no uso do pronome átono).

– Quero dar resposta à sua pergunta…

– ?

– Tenho coragem, sim. Não importam os erros gramaticais, os dentes, o cabaço…

– Pois tenho uma surpresa para você…

– ?

– Eu disse tudo aquilo brincando.

– Brincando?! Tudo brincadeira?

– Nem tudo. Os erros de português são verdadeiros. Mas os dentes não são postiços: são naturais.

– E a outra parte?

– Acredite: ainda está no lugar.

– Mas não por muito tempo.

O HUMOR DO PORTUGUÊS

(amostra do livro)

João Batista Gomes

 

1. ODIAR

a) Regência – Odiar é verbo transitivo direto (exige complemento sem preposição). Por isso, não aceita o pronome átono lhe(s) como complemento.

Veja construções certas e erradas:

1. Odeio-lhe muito! (errado)

2. Odeio-a muito! (certo)

3. Odeio-te muito! (certo)

4. Odiar-lhe-ei para sempre. (errado)

5. Odiá-lo-ei para sempre. (certo)

6. Odiar-te-ei para sempre. (certo)

7. Estou sendo sincero: não lhe
odeio mais. (errado)

8. Estou sendo sincero: não a odeio mais. (certo)

b) Conjugação – O verbo odiar não segue à
risca, no presente, a conjugação dos verbos terminados eu -iar, deixando-se contaminar pela conjugação dos verbos terminados em -ear.

Veja aqui

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